Saci fugindo da garrafa
Óleo sobre tela, 202230 x 40 cm
Em Saci fugindo da garrafa, o mito não é “ilustrado”: ele acontece. O Saci explode do confinamento em arco, como um cometa de carne e fumaça atravessando a noite. O gorro vira rastro, a brasa do cachimbo vira farol, e a lua assiste — cúmplice — ao instante em que a travessura se transforma em liberdade.
Há imagens que nascem de uma pergunta simples: como se pinta a fuga? Aqui, a resposta vem em forma de curva. O corpo do Saci não caminha; ele se desprende, lançado para fora da garrafa como se o ar fosse um rio. O gesto é rápido, mas a pintura segura o tempo no ponto exato em que a lenda volta a respirar.
A garrafa aparece como signo de captura — um “recipiente” para aquilo que, por natureza, não cabe. O folclore brasileiro costuma narrar a prisão do Saci como artimanha humana, uma tentativa de domesticar o indomável. Nesta tela, a garrafa perde o controle: torna-se apenas o vestígio de um erro. O personagem escapa com o olhar aceso, como quem já planejava a saída desde antes de ser fechado lá dentro.
Formalmente, a composição se organiza em espiral: gorro, corpo, fumaça e luz desenham um fluxo contínuo, quase caligráfico. A paleta concentra a noite em negros profundos, enquanto um amarelo incandescente envolve o Saci como aura de movimento — uma iluminação que não vem de fora, mas do próprio ato de fugir.
Ao escolher o Saci sob o luar, Leo DuLac recoloca o mito num presente vivo: não como nostalgia, mas como energia. A figura do trapaceiro protetor, do riso que desarma o medo, aparece como um comentário visual sobre tudo aquilo que tentamos aprisionar — desejo, imaginação, impulso, alegria — e que inevitavelmente encontra uma brecha.


















