Jazzy Perere
Óleo sobre tela, 202640 x 30 cm
Sob o domínio de uma noite monocromática, o mito do folclore brasileiro encontra o improviso visceral do jazz. Jazzy Perere subverte a mata, transformando-a em palco, trocando o assovio matreiro pelo sopro visceral de um saxofone. Tudo na pintura converge para a materialização do som: a fumaça tátil que emerge do instrumento não é apenas ar, mas uma textura de notas brancas que rasga a escuridão azulada entre cogumelos monumentais.
Em Jazzy Perere, Leo DuLac promove um encontro improvável entre o imaginário do folclore e a síncope do Mississippi. O Saci é despido de sua malandragem narrativa tradicional para ser reconstruído como um intérprete solitário de uma melodia azul. A obra não apenas retrata um personagem; ela captura a atmosfera de uma performance que parece suspender as leis da natureza.
O saxofone surge no lugar do cachimbo, como uma extensão do corpo da lenda, e dele emana a força motriz da composição. O uso do impasto na “fumaça” que sai do instrumento transforma o intangível — o som, o hálito, a improvisação — em matéria física. Essa massa branca, em alto relevo, contrasta com as profundas camadas de azul , criando um ponto de luz que não vem da lua, mas da própria criação artística.
O cenário reforça o caráter onírico e surrealista da peça. Os cogumelos monumentais, a vegetação estilizada e os olhos observando no escuro sugerem uma plateia estática, absorvida pelo ritmo. A lua, embora presente, torna-se coadjuvante diante do brilho gerado pela nota que acaba de ser soprada. Há uma tensão entre o silêncio da mata e o volume sugerido pelas pinceladas, estabelecendo um diálogo visual onde a cor única — o azul — dita o tempo da música.
Esteticamente, a obra transita pelo surrealismo brasileiro com toques de um romantismo sombrio, onde a economia cromática intensifica o drama. Ao fundir o mito ancestral com a liberdade do jazz, a pintura propõe uma identidade híbrida: o mito não é mais apenas uma lembrança do passado, mas uma figura viva e visceral que improvisa sua própria existência no breu da floresta. O resultado é uma imagem profundamente rítmica, onde o gesto do artista e o sopro do mito tornam-se uma coisa só.


















