Boitatá
Óleo sobre tela, 202335 x 27 cm
Em Boitatá, o mito vira fenômeno: faixas incandescentes de amarelo e vermelho ondulam como um terreno em combustão, enquanto troncos escuros se erguem como colunas, interrompendo o fluxo da chama. A serpente de fogo não é ilustrada — é traduzida em ritmo e estrutura, num vocabulário moderno e construtivo onde o calor se torna forma e o folclore, composição.
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Em Boitatá, o mito não aparece como personagem: ele aparece como fenômeno. A serpente de fogo do folclore brasileiro se manifesta aqui como um campo de forças — faixas luminosas que avançam em curvas contínuas, como se o calor tivesse adquirido forma própria. O olhar não encontra um contorno narrativo; encontra um ritmo: o mito convertido em movimento.
As cores operam como matéria incandescente. Amarelos intensos e vermelhos saturados se alternam em camadas, criando a sensação de combustão controlada, quase musical. A tinta a óleo sustenta essa fisicalidade: há corpo, atrito e pulso no modo como as transições acontecem, sem virar mero efeito. É uma pintura que parece irradiar — não por “representar” fogo, mas por organizar o fogo como linguagem.
Entre essas ondas de calor, surgem troncos escuros, verticais, como se a paisagem estivesse de pé diante do incêndio. Eles funcionam como interrupções e como estrutura: colunas que seguram o olhar, marcando um compasso contra o fluxo das curvas. É aí que o trabalho toca um vocabulário moderno e construtivo — uma clareza de composição que lembra princípios bauhausianos e a síntese do modernismo, sem virar citação literal: o mito é filtrado pela forma.
O resultado é um Boitatá abstrato, meio signo, meio território: uma criatura que não precisa ser desenhada para existir. Ela está no padrão, na repetição, na energia que atravessa o quadro como um aviso antigo — guardião em luz, presença em geometria.




















