Crooner
Óleo sobre tela, 202040 x 30 cm
Em Crooner, um felino antropomórfico ocupa o palco / estúdio como quem ocupa uma memória: terno, chapéu, mão no bolso e um microfone vintage diante do foco de luz. A cena é toda construída em tons de cinza, como um jazz bar suspenso no tempo — onde a voz parece prestes a surgir, mas o que vibra primeiro é o silêncio.
Crooner é uma pintura sobre presença. O personagem — um gato vestido como cantor de clube noturno — não está em ação explosiva; ele está em suspensão, no segundo exato antes do canto. A postura firme, a expressão levemente oblíqua e a elegância contida dão ao quadro um clima de noir: não o noir do crime, mas o noir do sentimento guardado.
A escolha pela monocromia transforma o palco em atmosfera. A luz recorta o corpo como um holofote de madrugada, enquanto o fundo se dissolve em gradações suaves, como fumaça que já se dispersou. Essa economia de cor faz com que cada contraste funcione como uma nota: claro e escuro se alternam com ritmo, e a pintura “toca” com sombras.
O microfone antigo não é só objeto: é testemunha. Ele marca a distância entre o íntimo e o público, entre o que se sente e o que se entrega. À esquerda, o suporte de partitura aparece como indício de repertório — mas o que importa aqui não é a canção escrita: é a canção que se inventa na garganta, naquela fronteira em que emoção vira timbre.
Há também um jogo de humanidade no animal. O felino é símbolo de instinto e mistério, mas aparece disciplinado por códigos de palco, roupa e etiqueta. Esse atrito — o bicho e o crooner — dá à obra uma espécie de poesia moderna: a máscara social como figurino, e o olhar como lugar onde o real insiste em aparecer.
Assim, Crooner se inscreve como pintura de clima: um retrato de jazz sem som, um retrato de voz sem canto, um retrato de noite sem relógio. O espectador não assiste a uma performance; assiste ao que antecede toda performance — o momento em que o mundo prende a respiração.
























