A mosca
Óleo sobre tela, 202540 x 30 cm
A Mosca aparece como um retrato frontal, quase um emblema: olhos vermelhos que ocupam a cena, asas claras abertas como lâminas de luz, e patas angulosas fincadas num chão dourado-terroso. O inseto não é detalhe do mundo — é o mundo concentrado num close. Entre o solar e o inquietante, a pintura transforma o banal em presença: aquilo que a gente tenta afastar, mas que insiste em olhar de volta.
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Em A Mosca, Leo DuLac aproxima o olhar até o ponto em que o inseto deixa de ser “pequeno” e se torna monumental. A escala é psicológica: o quadro amplia a criatura não para descrevê-la cientificamente, mas para instaurar uma presença. O vermelho dos olhos, saturado e direto, vira sinal — um ponto de tensão que conduz toda a leitura.
As asas claras, abertas e quase translúcidas, contrastam com a estrutura escura do corpo e das patas. Esse contraste cria uma ambiguidade: há algo de frágil e de cortante ao mesmo tempo, como se a leveza fosse também ameaça. A mosca não é pintada como acidente; ela é tratada como figura central, frontal, consciente do espectador.
O fundo dourado/terroso (entre poeira e ouro) reforça uma sensação de calor, matéria e atrito. É um ambiente que parece vibrar — não exatamente um lugar, mas um estado: o espaço onde o incômodo ganha brilho. A pincelada, expressiva e pulsante, evita a ilustração e procura a energia do encontro.
A obra funciona como memento do cotidiano: aquilo que costuma ser descartado retorna como símbolo. A Mosca pode ser lida como vigília, insistência, presságio ou simples ironia do real — mas, acima de tudo, como um retrato do que não pede permissão para existir. O quadro fixa esse instante em que o olhar encontra algo “menor” e percebe que, na verdade, estava sendo encarado.







